Em tempos, foi, o que se pode chamar, uma pessoa de sucesso. Advogado considerado, escritório próprio, freguesia certa, sem sinais de riqueza fabulosa mas, com todas as comodidades e confortos de uma vida desafogada. Contas e impostos em dia, casa na linha, carro de gama alta, esposa-doméstica e amante-secretária. Tinha o que se pode chamar uma vida confortável em Casa, no Escritório e na Vida. Mas a Vida, prega-nos partidas e, enquanto pensamos que já descemos tudo, estamos mergulhados num novo lanço de degraus e, sempre a descer. Parece a vertigem do abismo. Vamos descendo os degraus e, em cada vez que nos afundamos pensamos que já chegámos ao fundo.
Tudo começou com a morte prematura da mulher. Um cancro, enterrou-a em 6 meses e o Mundo começou a desmoronar-se ao ritmo da bebida. A amante deixou-o e, duma penada perdeu o estatuto e a secretária. Os dois filhos, um rapaz e uma rapariga já tinham saído de casa e entregavam-se a bem sucedidas carreiras internacionais: ela em Londres e ele em Nova Iorque. Com 56 anos acabados de fazer, e uma vida há longo tempo pacata e rotineira, nem sequer se apercebeu que tudo estava a mudar. Os clientes começaram a rarear na mesma proporção em que aumentava o desleixo na preparação dos casos a levar a tribunal e até na ausncia por esquecimento, em sucessivas sessões de julgamentos.
Primeiro abandonou o escritório, situado na Padre António Vieira, sem clientela que pagasse custos fixos elevados e, quase em simultâneo, vendeu a casa que tinha na linha, tendo arrendado um pequeno apartamento próximo do Campo de Sant’Ana. Sem clientes, com o vício do álcool profundamente entranhado, desleixou a aparência mantendo contudo uma farta cabeleira branca que amarelecia ao ritmo das mazelas da bebida e do tabaco. A voz, timbrada e poderosa, o vocabulário rico e tão fluente quanto o álcool permitia, denunciavam um homem que não tinha sido sempre aquilo que agora aparentava: um bêbado, na linguagem rude e pouco comtemplativa das tabernas. As garrafas de wisky de malte, aguardentes velhas e champanhes de reserva dos tempos iniciais, foram substituidas primeiro por wisky novo e aguardente branca de marca, para acabarem nos copos de três e bagaços que agora emborcava nas carvoarias e tascas de Lisboa.
Tinham passado apenas três anos. Estava com 59 anos, as pernas gangrenadas como consequência de diabetes, obesidade notória e, uma vida completamente dedicada ao vinho. Usava um sobretudo sebento e mal cheiroso, que tapava uma camisa e um casaco ainda em pior estado. O interior do sobretudo exalava um cheiro nauseabundo, mistura de comida podre, vinho azedo e urina. Para ganhar a vida, eufemismo que basicamente significa : “para pagar a bebida”, preenchia agora impressos para requisição do Bilhete de Identidade que, angariadores analfabetos lhe traziam, sendo o produto do trabalho dividido a meias. A tasca do ti Eduardo era agora o seu escritório de advocacia. E ainda a relembrar talvez um pudor antigo, nunca pedia um copo de três. Limitava-se a dizer, apontando para o copo de três vazio, que tinha em cima da mesa:
Oh Sôr Eduardo traga-me mais uma coisinha destas.
domingo, 3 de junho de 2007
sábado, 2 de junho de 2007
Jogando à bola com a “Judite”
A “estrada nova” ficava entalada entre as instalações da Polícia Judiciária e a Escola Superior de Medicina Veterinária. Tinha uma entrada a partir da Rua Gomes Freire, mas não tinha saída para lado nenhum. Era bastante inclinada e ao cimo era rematada, de frente, com um muro de 2 metros pertencente à escola e, do lado direito, com um portão da “Judite”. Com o correr dos anos e a dificuldade de estacionamento, foi transformada em Parque privativo da PJ com direito a cancela.
Não era muito fácil jogar à bola num terreno com aquelas características. Era fortemente inclinado e apertado mas, era o que havia. Para evitar que as bolas fossem parar ao fim da rua, as balizas eram no muro da Veterinária. Consoante o número de futebolistas era, par ou ímpar, assim jogávamos com uma ou duas balizas que estavam uma ao lado da outra, marcadas no chão com pedras ou casacos e, ao longo do muro com linhas de giz – um motivo de grande controvérsia com o sr. Pompeu, guarda e vigilante da Veterinária que, quando nos apanhava, nos obrigava a lavar e limpar os ditos riscos, enquanto nós barafustávamos e acusávamos um qualquer ausente, pela façanha. Não raro os remates mais desastrados entravam na própria baliza. Outros com certeira pontaria à baliza do adversário eram defendidos pelo guarda redes da própria equipa, que não queria arriscar um frango.
Sem a presença de carros, na altura ainda bastante raros, fazíamos futeboladas que duravam entre uma e seis horas. Ocasionalmente eramos interrompidos pela presença do “velho” ou da “velha “ de algum dos participantes que, não raro, era corrido à chapada até casa, preso por uma orelha e a escutar um sermão com a invariável temática do estudo, das notas, das faltas e o prognóstico dum futuro negro e a trabalhar nas obras. Naquela altura, os maus tratos no seio familiar não eram considerados “violência doméstica” nem o código penal defendia uns energúmenos que se juntavam para jogar à bola nas barbas da judite em vez de estarem a “marrar” como era sua obrigação.
Neste ambiente de segurança e previsibilidade, lá íamos fazendo as nossas jogatanas sem que algo de verdadeiramente perigoso nos ensombrasse as tardes e noites de bola.
Porém um dia, algo de aterrador nos aconteceu. Uns bófias da judite, que não estavam a gostar das nossas performances futebolísticas, resolveram fazer uma caçada aos “putos” e, pregar-nos um susto ou coisa parecida, que nos levaria até às instalações da Judiciária para uma “espécie de
interrogatório” com a dramatização inerente e, posterior chamada dos pais para participação da ocorrência e entrega dos delinquentes aos respectivos progenitores. O resultado seria certamente demolidor. Chegados a casa, haveria uma carga de porrada inicial, à base de estalada na cara e, fiveladas de cinto no traseiro, acompanhada com sermão e missa cantada. Ficávamos proibidos de sair à rua e, muito menos, de nos darmos com a canalha que nos andava sempre a desencaminhar. Qualquer pequena falha era punida com castigo corporal violento e com permanente e oportuna referência ao sucedido, e à vergonha que os nossos pais passavam por terem filhos assim. O incidente colocáva-nos com a espada de Demócles semienterrada no pescoço e sempre pronta a provocar novo sangramento. Demoraria meses até que tudo fosse adormecido e colocado em banho maria. Esquecido, isso nunca. Estava fora de questão.
Os agentes da judite, delinearam um plano simplista. Afinal tratava-se de dar uma lição a uns putos que, tinham a suprema lata de vir jogar à bola nas barbas da polícia.
Vieram dois pela Estrada Nova acima e outros dois sairam das próprias instalações da judite. Pensavam eles que, com um as duas vias cortadas, era só apanhar os patos.
Mas era obviamente uma caça de raposa e coelho. A raposa corria para ganhar o almoço e o coelho para salvar a vida.
Mal um de nós deu o alarme, em menos de um segundo estávamos a trepar o partão metálico da própria judite e a saltar o muro de dois metros que nos colocava no interior das instalações da Escola de Medicina Veterinária. Perseguidos e acossados pelos agentes que, estavam a ver as presas a fugir, corremos com quanta gana tínhamos pelos caminhos ajardinados até um gradeamento elevado, distante cerca de trezentos metros do local do “crime”. Aí chegados, passámos por entre duas grades que tinhamos anteriormente alargado com um pé de cabra, “encontrado” numa obra, precisamente para estas eventualidades. Sem hesitar, lançámo-nos pelo ar para aterrar no passeio da Rua da Escola de Medicina Veterinária. Ainda conseguimos ver o olhar furioso, mas conformado, dos agentes que não conseguiam passar as grades. Mas não tivemos tempo de saborear a vitória. O medo era tanto que corremos quase sem parar até ao Saldanha e depois, ao longo de toda a Av. da República, em direcção ao Campo Grande. Só parámos na Pista das Bicicletas, já agora, para dar uma voltinha. Reunidas todas as economias conseguimos arranjar três escudos que nos íam permitir alugar duas bicicletas durante 15 minutos. Como eramos quatro dava sete minuos e meio a cada um. Daria, digo eu. Pois com a nossa manha conseguíamos sempre um extra. Para já ninguém tinha relógio. Essa era uma prenda a receber, como prémio da conclusão do exame da quarta classe. Lá chegaria o tempo. Quando, pelos nossos cálculos, o quarto de hora se estava a esgotar, apenas circulávamos no extremo da pista e, esperávamos calmamente que nos viessem chamar para entregar a bicicleta. Deste modo ainda conseguíamos o percurso extra até ao local de estacionamento das biclas. Lá chegados, eramos alvo da ira do dono da loja que nos enxovalhava, insultava e ameaçava, jurando que nunca mais nos alugaria uma bicicleta. Ouvida a palestra, lá seguíamos para casa ao ritmo de um quarteirão a correr e outr a andar, até chegarmos ao Saldanha. Aí abrandávamos o passo para podermos chegar a casa com um ar mais normal e pouco suado. Afinal, tínhamos dito aos nossos pais que estávamos a brincar à carica no passeio da rua.
Não sei onde é que íamos buscar energia nem imaginação mas, lá que estávamos sempre a inventar sarilhos, lá isso estávamos. E afinal eu era o mais velho, chefe da clique e, já só me faltavam dois meses para fazer nove anos.
Não era muito fácil jogar à bola num terreno com aquelas características. Era fortemente inclinado e apertado mas, era o que havia. Para evitar que as bolas fossem parar ao fim da rua, as balizas eram no muro da Veterinária. Consoante o número de futebolistas era, par ou ímpar, assim jogávamos com uma ou duas balizas que estavam uma ao lado da outra, marcadas no chão com pedras ou casacos e, ao longo do muro com linhas de giz – um motivo de grande controvérsia com o sr. Pompeu, guarda e vigilante da Veterinária que, quando nos apanhava, nos obrigava a lavar e limpar os ditos riscos, enquanto nós barafustávamos e acusávamos um qualquer ausente, pela façanha. Não raro os remates mais desastrados entravam na própria baliza. Outros com certeira pontaria à baliza do adversário eram defendidos pelo guarda redes da própria equipa, que não queria arriscar um frango.
Sem a presença de carros, na altura ainda bastante raros, fazíamos futeboladas que duravam entre uma e seis horas. Ocasionalmente eramos interrompidos pela presença do “velho” ou da “velha “ de algum dos participantes que, não raro, era corrido à chapada até casa, preso por uma orelha e a escutar um sermão com a invariável temática do estudo, das notas, das faltas e o prognóstico dum futuro negro e a trabalhar nas obras. Naquela altura, os maus tratos no seio familiar não eram considerados “violência doméstica” nem o código penal defendia uns energúmenos que se juntavam para jogar à bola nas barbas da judite em vez de estarem a “marrar” como era sua obrigação.
Neste ambiente de segurança e previsibilidade, lá íamos fazendo as nossas jogatanas sem que algo de verdadeiramente perigoso nos ensombrasse as tardes e noites de bola.
Porém um dia, algo de aterrador nos aconteceu. Uns bófias da judite, que não estavam a gostar das nossas performances futebolísticas, resolveram fazer uma caçada aos “putos” e, pregar-nos um susto ou coisa parecida, que nos levaria até às instalações da Judiciária para uma “espécie de
interrogatório” com a dramatização inerente e, posterior chamada dos pais para participação da ocorrência e entrega dos delinquentes aos respectivos progenitores. O resultado seria certamente demolidor. Chegados a casa, haveria uma carga de porrada inicial, à base de estalada na cara e, fiveladas de cinto no traseiro, acompanhada com sermão e missa cantada. Ficávamos proibidos de sair à rua e, muito menos, de nos darmos com a canalha que nos andava sempre a desencaminhar. Qualquer pequena falha era punida com castigo corporal violento e com permanente e oportuna referência ao sucedido, e à vergonha que os nossos pais passavam por terem filhos assim. O incidente colocáva-nos com a espada de Demócles semienterrada no pescoço e sempre pronta a provocar novo sangramento. Demoraria meses até que tudo fosse adormecido e colocado em banho maria. Esquecido, isso nunca. Estava fora de questão.
Os agentes da judite, delinearam um plano simplista. Afinal tratava-se de dar uma lição a uns putos que, tinham a suprema lata de vir jogar à bola nas barbas da polícia.
Vieram dois pela Estrada Nova acima e outros dois sairam das próprias instalações da judite. Pensavam eles que, com um as duas vias cortadas, era só apanhar os patos.
Mas era obviamente uma caça de raposa e coelho. A raposa corria para ganhar o almoço e o coelho para salvar a vida.
Mal um de nós deu o alarme, em menos de um segundo estávamos a trepar o partão metálico da própria judite e a saltar o muro de dois metros que nos colocava no interior das instalações da Escola de Medicina Veterinária. Perseguidos e acossados pelos agentes que, estavam a ver as presas a fugir, corremos com quanta gana tínhamos pelos caminhos ajardinados até um gradeamento elevado, distante cerca de trezentos metros do local do “crime”. Aí chegados, passámos por entre duas grades que tinhamos anteriormente alargado com um pé de cabra, “encontrado” numa obra, precisamente para estas eventualidades. Sem hesitar, lançámo-nos pelo ar para aterrar no passeio da Rua da Escola de Medicina Veterinária. Ainda conseguimos ver o olhar furioso, mas conformado, dos agentes que não conseguiam passar as grades. Mas não tivemos tempo de saborear a vitória. O medo era tanto que corremos quase sem parar até ao Saldanha e depois, ao longo de toda a Av. da República, em direcção ao Campo Grande. Só parámos na Pista das Bicicletas, já agora, para dar uma voltinha. Reunidas todas as economias conseguimos arranjar três escudos que nos íam permitir alugar duas bicicletas durante 15 minutos. Como eramos quatro dava sete minuos e meio a cada um. Daria, digo eu. Pois com a nossa manha conseguíamos sempre um extra. Para já ninguém tinha relógio. Essa era uma prenda a receber, como prémio da conclusão do exame da quarta classe. Lá chegaria o tempo. Quando, pelos nossos cálculos, o quarto de hora se estava a esgotar, apenas circulávamos no extremo da pista e, esperávamos calmamente que nos viessem chamar para entregar a bicicleta. Deste modo ainda conseguíamos o percurso extra até ao local de estacionamento das biclas. Lá chegados, eramos alvo da ira do dono da loja que nos enxovalhava, insultava e ameaçava, jurando que nunca mais nos alugaria uma bicicleta. Ouvida a palestra, lá seguíamos para casa ao ritmo de um quarteirão a correr e outr a andar, até chegarmos ao Saldanha. Aí abrandávamos o passo para podermos chegar a casa com um ar mais normal e pouco suado. Afinal, tínhamos dito aos nossos pais que estávamos a brincar à carica no passeio da rua.
Não sei onde é que íamos buscar energia nem imaginação mas, lá que estávamos sempre a inventar sarilhos, lá isso estávamos. E afinal eu era o mais velho, chefe da clique e, já só me faltavam dois meses para fazer nove anos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)